
|
|||||||||
o agente secreto no jornal diário do nordeste |
|||||||||
| A essência e a aparência: os padeiros do mal | |||||||||
![]() Jornal Diário do Nordeste 30/05/2010 |
30/05/2010 - Tendo como motivo aparente a montagem de um quebra-cabeça que entrelaça espionagem e narrativa policial, Joseph Conrad mergulha na condição humana, apontando as fronteiras que se estendem entre a essência e a aparência, bem como os verdadeiros motivos por que se rege a engrenagem social
A partir de um ponto de vista em terceira pessoa, conduzido por um narrador onisciente e também com marcas de intrusão, esse romance apresenta como espaço e tempo a cidade de Londres no último quartel do século XIX - um ponto convergente para os exilados polícos daquele período. Assim, o leitor entra, de chofre, em contato com a personagem Verloc - anarquista no exílio, que serve a interesses estrangeiros bem como faz também as vezes de informante para a polícia londrina. Conhece a pequena loja que lhe serve de disfarce e os membros da família, cuja descrição funde traços físicos e psicológicos, com laivos de humor e de ironia, bem ao gosto dos ficcionistas que dialogam com as técnicas realistas na composição de tipos ou de espaços. Levando-se em conta os traços de estilos, a composição desse romance alcança um ponto alto no momento em que une à narração os fios descritivos, delineando, assim, o corpo vivo do cotidiano da cidade: "As polidas aldravas das portas reluziam até onde os olhos podiam ver, as janelas limpas brilhavam com um fulgor escuro e opaco. E tudo estava sossegado. Mas um carrinho de leite chacoalhava ruidosamente pelo distante horizonte; um entregador de carnes, guiando com a nobre imprudência de um cocheiro nos Jogos Olímpicos, se lançou sobre a esquina, sentado bem acima de um par de rodas vermelhas". E não falta um olhar culpado de um gato que emerge do calçamento. A trama começa a ganhar fôlego, em relação ao tecido dramático, quando Verloc é chamado à presença do novo embaixador. O senhor Vladimir, Primeiro Secretário, tinha ares de um homem tranquilo e cordial. Por conta desses traços, podia desenvolver com plenitude uma de suas habilidades: a investigação das ações alheias, como olhamos profundamente aquele que não nos vê. Verloc, em frente ao Primeiro Secretário, ouvia-lhe as observações, num silêncio terrível, imobilizante. E, ante a surpresa do discurso, ficou demasiadamente chocado, sem forças sequer para qualquer protesto, por mais tênue que este pudesse ser. Vladimir pronunciava calmamente o seu desejo: "Uma série de atentados". Não era necessário que fossem atentados sangrentos, mas deveriam ser suficientemente assustadores. E de modo incisivo, judicioso: "Eficazes. Que sejam dirigidos contra edifícios, por exemplo. Qual é o fetiche do momento, que toda a burguesia reconheceria, hein, Senhor Verloc?". Ressaltou, depois, que nada contra a realeza ou a religião - portanto, o palácio e as igrejas deveriam ser deixados de lado. Onde então deveria ele agir? Exatamente, nos prédios das embaixadas, uma vez que, nesse caso, a repercussão estaria absolutamente garantida. Agora, agentes secretos, policiais, diplomatas, pessoas anônimas ou figuras da política, toda essa gente irá percorrer o caleidoscópio da sociedade londrina - esta, com seus gestos calculados, premeditadamente polidos, falsifica a identidade, e, com isso, o que é mentira parece verdade, e o que é verdade atrai sobre si imensa desconfiança. Joseph Conrad à semelhança do ourives com o seu cinzel raspa a crosta das relações humanas, despindo o corpo das práticas terroristas por um lado, por outro mostra a corrosão da sociedade moderna que transformava rapidamente. Essa edição de "O Agente Secreto" é bilíngue; desse modo, permite ao leitor comprovar a propriedade da tradução; esta converva os movimentos do texto origial, a cadência de suas frases, o ritmo da narrativa, em que o prosaico é, constantemente, tocado pelo poético: "... e terrível, na simplicidade de sua ideia, que convocava a loucura e o desespero para regenerar o mundo. Ninguém olhava para ele. E ele prosseguiu, inesperada e fatalmente, seguindo como uma peste em uma rua cheia de homens". Encerra-se assim uma narrativa que supera a simples estrutura de um thriller e se converte numa singular construção literária. CARLOS AUGUSTO VIANA: EDITOR |
||||||||
|
Rua Alfredo Pujol, 285 - 12° andar - Santana - 02017-010 - São Paulo - SP Tel.: +55 (11) 6011-2566 / +55 (11) 6950-9095 - e-mail: editora@editoralandmark.com.br |
|||||||||
|
|||||||||